segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Sem Amido não há Extrusão!


A coisa é mais ou menos assim: Blogs precisam de leitores e leitores buscam posts ou postagens.
E quem escreve  os posts? Os blogueiros, certo? E de onde  saem  as formas de escrever? No meu caso, vêm de 4  fontes:

1) Eu escrevo a partir  de uma ideia original, como fiz aqui diversas vezes. Isto inclui textos técnicos, textos acadêmicos , textos semi-formais, apresentações, etc.
2) O blogueiro reproduz um texto na integra de outro profissional, na  forma de trabalho  acadêmico , artigo   técnico  publicado  em revistas especializadas, vídeos, etc.
3) Eu desenvolvo um texto a partir de outra fonte, ou seja, não jogo o texto solto e sim o interpreto segundo minha visão do assunto.
4) Faço recomendações de livros, seminários, sites, etc.

Um fator que gera ansiedade em qualquer blogueiro é a falta de assunto, porque isso resulta em uma queda no dinamismo do blog e corre-se o risco das pessoas perderem  o  interesse. Há momentos que simplesmente não tem o que escrever e que material   algum  cai  no colo. E se caem são fracos. Isso mesmo, nós não publicamos tudo que lemos, pois temos o dever de garimpar e decidir se o conteúdo  é bom ou não para reprodução. Faço esta introdução ou dou  esta volta toda, para explicar que, já tomado por um pequeno desconforto de não escrever desde junho, fui em outubro à cidade de Jaboticabal, a 350 km de São Paulo, mais precisamente na Unesp,  pra participar de um curso sobre extrusão em rações de animais de estimação. Nos 2 primeiros dias, tivemos a parte teórica e dentre as diversas palestras, escutei uma resposta a um questionamento: "Sem amido não há extrusão". Foi então que me deu um lead!  Sim, um lead! Sabe, existe no  jargão jornalístico um termo que é "dar  um lead" que, de uma forma resumida, consiste em fazer perguntas básicas para serem respondidas, a fim de  justificar  uma manchete  e iniciar um primeiro parágrafo  introdutório da matéria.

Ou seja, deu um lead para meu novo assunto.


     Protagonismo do Amido do Milho no processo de Ração Extrusada para Pet Food!


Extrusão é um processo largamente usado na industrias de plástico e metal, mas também encontra bom espaço  nas empresas de alimentos que produzem snacks e  nas empresas que fabricam  pet food.
Primeiramente iniciarei explicando a diferença entre os processos de extrusão e peletização, com as suas  similaridades e marcantes diferenças.

Extrusão é caracterizado pelo cozimento dos ingredientes sob alta pressão, umidade e temperatura, em um curto espaço de tempo. Este processo propicia maior digestibilidade do alimento, além de melhorar a palatabilidade da ração. Outra vantagem é a versatilidade em relação ao controle da textura, densidade (grau de expansão) e formato do alimento. Os produtos extrusados podem ser oferecidos em diversas formas e tamanhos, o que traz vantagens também em relação à atratividade.

Kibbles ou Extrusados

Já a peletização consiste na compactação de ingredientes, formando pequenas unidades chamadas "pellets". Para esta transformação , umidade, pressão e temperatura também estão envolvidas, porém,em menor intensidade, resultando em grau de cozimento reduzido.
Apresenta desvantagens em relação a digestibilidade, eliminação de organismos patogênicos e palatabilidade, mas é um processo mais barato.

Pellets

Em ambos os processos a lógica está na expansão do amido, que é o responsável direto pela textura do produto final. No caso da extrusão se cozinha/gelatiniza no mínimo 60% do amido e da peletização no máximo 30%, o que torna o pellet menos cozido, menos aerado e mais pesado que o extrusado, também chamado de kibble (termo em inglês).
Os produtos extrusados são para alimentação de gatos, peixes e cães, mas também são largamente utilizados em snacks do tipo "Elma Chips" e outras aplicações alimentícias, e pellets para aves e porcos, sendo que estes dois  animais aceitam bem esta textura em suas rações.

A produção em escala industrial se divide em várias fases conforme demonstrarei no fluxograma abaixo, mas é dentro da extrusora ( 4 fases destacadas em verde)  que detalharei mais, pois é nesta parte  que vem  o conceito de expansão do amido.


Fluxograma Processo Ração Cães


Extrusora


Ingredientes secos/moídos antes entrar alimentador  Extrusora

Antes de entrarmos no conceito de extrusão por etapas do processo, comento que a matéria-prima seca que é usada para alimentar a extrusora é composta por milho, arroz, proteínas de diversas fontes, fibras e parte dos ingredientes. Tudo passa por uma moagem já descrita no fluxograma. Premix mineral, antioxidantes, antifúngicos, corantes, gordura e palatabilizantes, são adicionados em fases posteriores a esta mistura seca também chamada de amorfa.

Alimentador Extrusora

A mistura seca é adicionada mecanicamente no alimentador,  acima e será acondicionada no tanque abaixo.

Tanque Alimentação


P'ré-Condicionador

O Pré-Condicionador é responsável pelo pré-cozimento e a pré-gelatinização do amido.

Canhão Extrusão


No canhão de extrusão se dá o cozimento final da massa e a expansão/gelatinização do amido.
Um rosca geométrica empurra a massa na direção do molde com pouca presença de oxigênio, alto cisalhamento, tempo e temperatura. Esta parte do equipamento possui uma camisa helicoloidal ou horizontal, por onde passam água ou vapor para alterar a temperatura, e ranhuras que funcionam como um amortecedor na parte interna para auxiliar no cisalhamento.
Em resumo a massa seca amorfa alimenta a extrusora, no pré-condicionador esta massa começa a pré-gelatinizar e no canhão se torna um gel viscoelástico,  que é ideal para se expandir na saída do molde.


Moldes e Facas

Ao sair do canhão de extrusão a massa afunila e passa por um molde, exemplos nas fotos abaixo e por um conjunto de facas. Ambos  ficam internamente nesta parte do equipamento  acima.
As sair do molde e ser cortado, o kibble despressuriza em contato com o meio ambiente e recebe oxigênio, que incha e tenta escapar mas fica retido devido a rede formada de amido dentro do extrusado. Dai vem a expansão do kibble.

                                 

                                                                        Tipos de Moldes

Kibbles ou Extrusados recém saídos do molde e cortados pelas facas

Acima demonstro kibbles que fizemos na produção que acompanhei na Unesp de Jaboticabal.


Nota do Blogueiro


Eu me atentei apenas para a importância do amido de milho e outras fontes como o arroz, porque tem relação com o blog. Mas é certo que o processo é bem mais amplo e foi minimamente mostrado no fluxograma. Etapas de moagem, secagem, aplicação dos líquidos (gordura e palatabilizantes), também são pontos críticos, mas que não representam o tema principal do post.
Esta mudança de textura proporcionada pelo amido é explicada também pela transição vítrea, além do conhecida gelatinização por  cozimento deste hidrocolóide. Transição vítrea é a mudnça reversível em materials amorfos, entre uma estado duro e relativamente rígido par um estado mole e borrachento.
Apesar de uma mudança profunda nas propriedades físicas de uma material quando da sua transição vítrea,  este processo não é uma mudança de fase, como são a fusão ou solidificação, e sim uma mudança na textura.
Finalizo  dizendo que é possível aplicar o amido de milho das marcas tradicionais disponíveis no mercado como é usado na indústria de alimentos, mas por critérios de disponibilidade e menor custo se usa o milho em grãos.


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